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Cuarto de outono

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Cuarto de outono

María do Cebreiro, escritora
4,2/5 (5 votos)

Poesía, Sotelo Blanco Edicións, 2008

ISBN: 879-84-7824-549-9

O sexto libro de poemas de María do Cebreiro ve a luz na renovada colección Edoy Leliadoura de Sotelo Blanco. Continúa a poeta o andar que trazaba na obra anterior, Os hemisferios (2006), inserindo diálogo, ensaio e pensamento.

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Comentarios (1)

#1 17/Setembro/2008 | Oscar Mourave dixo:

Há séculos que parte da crítica que se projecta sobre a Poesia se assenta, na minha opinião, no pressuposto duvidoso de buscar a sua função. De Savonarola a Eliot, páginas e páginas de especialistas seguem esse repto lançado pelo pensamento orientado pela Lógica. Às vezes me surpreendo com que fome nos lançamos sobre conjecturas facilmente contestáveis, mesmo aqui, debaixo desse azul quase invencível do céu de Lisboa, tendo nas mãos a companhia da María do Cebreiro, na forma do seu livro mais recente: Cuarto de outono.


Essa voz galega, transparente, convida-nos a passear com ela num percurso que parte da memória “Tiña pernas bonitas, miña nai./Ela quería de nós/máis determinación”, passando (com que delicado diálogo) pela Épica dos vencidos, tão cara a Mahmoud Darwish, “Que esqueceran os nomes./Que se entenden”, até à interrogação filosófica do próprio poema, que às vezes, drummondiano, exige uma chave, outras vezes, cebreiramente, tenta escapar da página, “E para que o poema/poida escapar da páxina:/hai que termar do alento,/cavilar moi amodo/ en Spinoza.


Os caminhos mais interessantes para a busca do lugar da poesia no mundo está na própria poesia, no seu instável campo semântico, onde nada é o que o parece ser, e todas as portas estão abertas para serem cruzadas ao menor sinal de descuido.


María é uma excelente conversadora, seja com a emoção epifânica de Clarice Lispector, ou com o senso tão aguçado de quem está imerso no real, como de Angela Davis. Se María é uma excelente conversadora, eu sou um curioso que gosta de prestar atenção às conversas alheias, seja no metro, no autocarro, no café ou num poema... e como eu aprendo com essa minha curiosidade: na página 67 desse Cuarto de outono, aprendo que, se houver alguma função para a Poesia, é a de perturbar constantemente a Lógica, de interrogá-la no seu mais íntimo e suspendê-la, como a uma sibila oriental, por um fio, com a seguinte interrogação:


- porque algo marcha mal em todas as partes ?


Com a María, aprendemos que a poesia é aliada da filosofia e não o seu contrário. E depois de lido esse livro, saio do café e o azul intenso do céu de Lisboa transforma-se agora num imenso quadro onde posso reescrever um novo enredo; elaborar um outro entendimento sobre qual é o lugar que a poesia ocupa no mundo.


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